quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O porco azul


Ano passado ganhei um porco azul de focinho rosa. Tão magriiiinho, coitado. Mas estampava no rosto uma carinha feliz. Me afeiçoei. “Um amigo para as horas difíceis”, pensei eu. No início era tudo festa, alimentava o bicho um pouquinho aqui, um pouquinho ali. E sorria. Eu ficava (e ainda fico) realmente satisfeita em vê-lo engordar, aumentar o peso. Olho sua carinha feliz e fico feliz também.

Todo mês, quando sobrava algum, dava de comer ao bicho azul. Mas o tempo foi passando e a grana, irresponsavelmente, sendo desviada para outras coisas. E do porco azul já não lembrava tanto. O engraçado é que ele nunca perdia a cara de feliz, o coitado. Comecei então a dá-lo o que restava ou que achava que não ia fazer falta. Era assim, hoje um tanto, amanhã nem isso e assim por diante. E de grão em grão, meus amigos... vocês já sabem. O bicho até que ficou pesadinho...

Mas como destino de porco é ir para o abate, nuvens negras se aproximaram do pobre coitado. Chegaram os dias difíceis. A consciência insistia: “Agüenta firme. Isso passa. Dias melhores virão”. Mas o porco azul já estava claramente ameaçado. E não é que o bicho era corajoso! Não tremia, não grunhia, nem perdia a bendita cara de feliz! Sinceramente, não fosse a boa surpresa que caiu na minha conta, tinha matado meu porquinho azul.

Ontem olhei para ele e ficamos ambos felizes! Alimentei-o mais um pouquinho e prometi que de agora em diante sua verba não será mais desviada, pelo menos, até o fim do ano! Porque em dezembro 13º não tem mais... e um porco gordinho pode virar um bom prato de ceia de Natal.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

E não se salva ninguém....

Li no jornal hoje: “Achados restos mortais dos Romanov”.

Quase cem anos depois, já se pode afirmar que a princesa Anastácia morreu junto com seus pais e irmãos pelas mãos dos bolcheviques. Se assim foi (e concordo com quem chama seu desaparecimento de mito romântico), acho até que ela teve sorte em morrer junto aos seus.

Imaginemos: qual não seria o trauma que carregaria por toda a vida? Pois tem certas coisas que o dinheiro não conserta, e se bem me lembro, sua salvação teria custado uma vida bem diferente da de uma herdeira muito, mas muito rica.

Afinal, vejamos o Sr. Bruce Waine. Uma vida torturada por lembranças tristes e esforços nem sempre (ou sempre) inúteis e que só terminam por criar e recriar o mal que espera combater. Mas esta outra história é coisa de gibi, Anastácia já foi bem real e talvez sua última visão tenha sido dos canos das armas em sua direção. Ou será que ela fechou os olhos e só pôde ouvir os sons dos disparos?

Enfim... tudo isso me fez pensar (e como poderia esquecer?) nos últimos mortos pelas mãos de PMs e que tiveram nestes últimos meses seus minutos póstumos de fama. É claro, muitos e muitos outros já morreram e morrem todos dias vítimas de circunstâncias bem parecidas. E fiquei pensando (neste balbucio que é meu pensamento) em quantas pessoas traumatizadas nossa sociedade está criando a cada minuto... segundo... milésimo de segundo...

E com qual das histórias nos aproximamos mais: a de Anastácia ou a de Waine?

Ainda ontem, enquanto almoçava, vi uma reportagem sobre uma menina de oito anos, única sobrevivente do acidente que matou toda sua família. Deveria ter ficado feliz por ela ter sobrevivido, mas enquanto mastigava pedaços de frango com arroz e feijão, fiquei triste por ela. Milagre? Não sei. Me pergunto: qual vai ser o preço da sua sobrevivência?

Agora, será que há espaço para justiceiros em nossa cidade? E de fantasia e tudo?! (não isso é demais...). Parece mesmo é que para nós só restaram os bandidos e os anti-heróis, trocando de lado todo o tempo. Confundindo tudo. Instaurando, mantendo e exaltando o caos, sustentado por corruptos e malandros de gravata.

E, pelo menos eu, fico assim, à espera do próximo tiro. Quando passo pela favela de Manguinhos e pelo Jacarezinho ao voltar do trabalho para casa. E, olha que trabalho bem no pé da Mangueira, há alguns metros do tal Buraco Quente... ganho o meu pão e o aluguel, muitas vezes embalada por sons de tiros, de helicóptero e granadas (e sempre que ouço estes, fico pensando como se joga granada dentro de uma favela). Volto em ônibus com sons de bala no encalço. E é assim que muitas vezes me pego, à espera do próximo tiro, sentindo minha cabeça enorme como vários círculos concêntricos. Alvo.

Esperando para ver quem é o próximo pato a cair para trás com cara de bobo, rezando para não ser eu. E sempre tem um. Todo dia tem.

Vez em quando tem uma viatura da polícia que fica na entrada do prédio em que trabalho. Engraçado, eu nunca olho para os policiais e passo como se não eles não estivessem ali, fingindo ser normal, tentando me convencer que é para eu me sentir segura. Mas não dá. Cada vez mais me parece que entre mortos e feridos não se salva ninguém.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

...

Um dia (não sei quando) escrevi este texto. Encontrei, achei legal e resolvi postar.

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Ficção. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Heheheh

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"Acordou e achou que o sol era uma benção. Sentia preguiça, mas sabia que a compensação de levantar cedo era viver o dia maravilhosamente. Era mais um dia, mas não era um dia qualquer. A cabeça cheia de planos dava um tempo na ansiedade para sentir o sol e esperar a melhor hora chegar. Levantou e achou que tinha sorte. Sorriu. Cantou embaixo do chuveiro e ensaiou alguns tímidos passos de dança. Quando se preparava para ver se descortinar o palco da sua vida, ouviu o que preferiria nunca ter sido pronunciado. Pelo menos não naquele momento, não naquele dia. A boca se movia em câmera lenta e os sons navegavam de onda em onda, se aproximando como um bafo de calor sufocante. E, de repente, já não estava ali e sim em vários lugares do passado, revivendo cada mágoa e remorso do passado. E se encolheu. Diminui de tamanho. Percebeu que sua voz tornou-se inaudita. Calou.

Quando saiu na rua, imaginou que a distância entre a sua casa e o ponto de ônibus fosse menor. Sentou na Kombi, mas logo à frente, quando todos o lugares foram ocupados, percebeu que o seu era o menor de todos. Tanta consciência tinham os outros passageiros de sua condição que ao descer não foi preciso que o passageiro da frente se afastasse um pouco da porta. Sentiu-se pequeno, pequeno e invisível.

Atravessou a rua enquanto os carros passavam, avançando o sinal vermelho. Entrou no prédio onde trabalhava, sentou-se à sua mesa naquela sala sem janelas. Não viu o sol. Não olhara para o alto durante o caminho.

Ali ficou. Ninguém entrou na sua sala. Ninguém lhe contou das novidades do fim de semana. Todos passavam pelo corredor, passavam direto pela sua porta. Ninguém lhe deu bom dia, boa tarde ou até logo.

Tentou não se sentir tão sozinho e ligou para o banco pra consultar o saldo para compras do seu cartão de crédito. Uma, duas, três vezes... decorou a musiquinha de espera do tele-atendimento do banco. O telefone tocou! Mas era engano.

Não se lembrava mais do que seria a maravilha do dia. Não se lembrava mais que dia era. Tentava pensar e lembrava da boca, lembrava do calor. E nesse momento sentiu o que era proibido sentir de si mesmo: pena. Sentiu-se vítima. E vitimou-se com o estilete guardado na primeira gaveta ao lado."

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Onde estão teus tamborins?"

Entrei na casa nova. Nova. Nova minha. Antiga para a Praça, para a rua, para seu dono, para o cachorro do vizinho (rs), ou melhor, o cachorro, animal de estimação do vizinho. Entrei. Lembro de minha antiga casa e, às vezes, me esforço para vê-la na minha nova casa, pois por vezes me incomoda a geladeira que congela tudo (congela o leite, o tomate, o arroz, a alface, o queijo), o som que vem da Praça, os sons que vêm de não sei da onde de noite, o som da noite, o frio que sempre faz por lá. Penso em dar uma faxina geral na casa para ela parecer mais minha – não sei por quê acredito nesta idéia –. Acho que entrei na casa nova e não saí da antiga. Lá eu conhecia todos os cantos, podia andar por ela com a luz apagada, sabia a hora que podia sair e chegar sem problemas, onde guardar as coisas e onde elas poderiam estar. Tenho saudades. Acho que estou vivendo estágio traumático pós-mudança. Sentimento estranho. Parece que estou de férias.

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Alguém disse que eu começaria a vida agora. Vida nova. Mas como? Pois eu não mudei. Mudei foi de casa.

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Minha Casa
(Zeca Baleiro)

é mais fácil cultuar os mortos que os vivos
mais fácil viver de sombras que de sóis
é mais fácil mimeografar o passado
que imprimir o futuro
não quero ser triste
como o poeta que envelhece
lendo maiakóvski na loja de conveniência
não quero ser alegre
como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
sob o sol de domingo
nem quero ser estanque
como quem constrói estradas e não anda
quero no escuro
como um cego tatear estrelas distraídas
amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas
tempestades que não param
pára-raios quem não tem
mesmo que não venha o trem não posso parar
veja o mundo passar como passa
uma escola de samba que atravessa
pergunto onde estão teus tamborins
pergunto onde estão teus tamborins
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei

sexta-feira, 28 de março de 2008

Coisas para se fazer quando não se tem muito o que fazer...

Sexta-feira. Pouco tempo para aprender determinadas coisas que se deveria aprender - Juros compostos, Sistema Price, Valor Atual - e tempo suficiente para, definitivamente, aceitar que é imprescindível estudar com antecedência. Estudar não só matérias, como também planos, sonhos, porque estes também devem ser estudados. Para saber seus limites e possibilidades e ter consciência do tamanho de nossas pernas para dar um passo de cada vez. Mas passos firmes.

Sabe-se: todo tempo é construção. E se
cada um tem o seu, pode ser possível construir o tempo da aprendizagem na medida da necessidade e do que se quer. Ou não?

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Mas, falemos algo sobre a construção, a construção não-arbitrária do tempo de cada um. Esses "edifícios" já possuem infra-estrutura, senhores. Por exemplo, a religião, o trabalho ou a falta dele, o ano escolar, o ano civil, a opinião alheia, a incumbação de um vírus, a vida de um mosquito, a morte diária de dezenas (e quem sabe até mais?). Resta saber o que nos cabe nesta construção, da qual desconfio que não somos o mestre de obras, mas o pedreiro que ergue
paredes flácidas ou o que espera, espera....
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Enfim eu me lembro que dois dias é pouco e ao mesmo tempo muito para algumas fichas caírem sem que a máquina de café as devolva.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Nostalgia...

Do dicionário Aurélio:

nostalgia [De nost(o)- + -alg(o)-2 + -ia1; fr. nostalgie.]
Substantivo feminino.
1.Melancolia produzida no exilado pelas saudades da pátria/ 2.Saudade

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Depois de quase nove anos, voltei a escola onde cursei o Ensino Médio para pegar meu Diploma. Engraçado. Algumas coisas mudam, outras permanecem mesmo muito parecidas. O caminho já vai bem mais pichado, com muitas barraquinhas que já não me lembro bem se já existiam (se bem que acho que não prestava muita atenção nisso naquela época). Um conjunto de prédio, muito bonito na época (ao menos pra mim), agora estava enfeitado com muitas placas de “Vende-se” e “Aluga-se”, além de uma aparência caída com o peso do tempo.

Nem precisei me lembrar das referências para acertar o ponto de ônibus, alguns estudantes uniformizados deram o sinal. Quando desci, percebi que no meio de tanta mudança, a escola estava ali tal como antes. Com as mesmas paredes, a mesma tinta gasta no chão da quadra polivalente, o mesmo alambrado em volta que me rendeu a cicatriz que carrego no cotovelo direito, a mesma frase com tinta nova na caixa d’água: “Pense Grande, Pense JK” (achava isso tão exagerado...), enfim a mesma entrada, os mesmos espaços tomados de alunos repetindo os tipos que andavam por ali, inclusive eu. Achei engraçado o contraste da permanência com a mudança. Ao mesmo tempo em que reconhecia ali minha escola, tudo me dizia que os tempos eram outros, assim como as pessoas, assim como eu. Senti mesmo alguma sintonia quando vi uma placa na parede dizendo que em 1997 a Escola Técnica Estadual Juscelino Kubtischek tinha sido escolhida pelos alunos e comunidade a melhor de não sei da onde. E achei que todos aqueles troféus na entrada, junto com a placa, eram uma tentativa de viver uma glória passada, sobre a qual eu sempre me questionei sobre a veracidade.

Pedi para ir ao banheiro só para entrar no pátio. Minha vontade era de andar por todos os corredores, ir à biblioteca, tocar os livros, como alguém que procura algo. Talvez uma lembrança escondida. Mas só cruzei o pátio para ir ao banheiro (que já estava muito diferente) e no caminho olhando de um lado para outro, reconheci algumas salas, lembrei de aulas, lembrei de risos.

Engraçado, pensando bem agora, percebo que me forcei a sentir nostalgia e não consegui.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

"Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". (Pitágoras, 571/70 a.C – 497/96 a.C)

Hoje acordei com a melodia da Hora da Marcha na cabeça.

Pra quem nunca viu, a Hora da Marcha encerra um programa muito legal que passa na TVE chamado Pitágoras. O programa é voltado para o público infantil e tem o objetivo de estimular as habilidades cognitivas por meio de bonecos, animação e dramaturgia. Feito pela universidade de Keio, no Japão, o programa já ganhou vários prêmios internacionais por seu valor educativo.

Na Hora da Marcha um grupo de “japinhas” organizados em fila indiana marcha, ao som de uma música que vai explicando os movimentos. E começa: o primeiro realiza um movimento, o qual é repetido pelo segundo enquanto o primeiro já realiza outro movimento. E assim acontece, consecutivamente, com o terceiro, o quarto... Todos os movimentos se encaixam, como se fosse uma grande engrenagem.

Enquanto tomava banho, pensava na Marcha. E como sempre minha cabeça voou e comecei a pensar como as coisas na vida funcionam assim, uma ligada a outra. Um sim ou um não aqui pode modificar muita coisa lá. É o lance das escolhas. Escolher tentar ou desistir? Mas tem também que as escolhas dependem de muitos “poréns”, às vezes, de muitos “foda-se”, de muitos “infelizmente”, de muitos “é isso!”. O negócio é pesar e ver para que lado pende a balança, concordar ou não. E assim, vamos harmonizando as coisas, tentando colocar em ordem e resolver problemas, organizando os sonhos, os desejos.

...

A primeira parte deste texto eu comecei a escrever na quinta-feira passada, véspera de feriadão. Hoje, segunda-feira, resolvi terminar de escrevê-lo e vi que já não tinha a mesma linha de pensamento. Nem lembro mais o que queria complementar. Engraçado que o texto parecia tão legal na quinta. Hoje parece mesmo muito xinfrim. Será que é porque para muita gente hoje ainda continua o feriado e para mim não? Será que é porque acordei com dor de cabeça, suando frio e com uma dorzinha no estômago depois de ter me empanturrado de camarão na noite anterior? Será que é porque queria estar dormindo? Será que é porque só consigo pensar em jogar xadrez e capturar aquela maldita dama do Bruno? Sei lá...

Acho mesmo que é hora de começar a trabalhar.

...

Sai do banheiro com uma cara amarrada:

- Não tô me sentindo bem não...

A mãe fala com autoridade:

- Falei que você ia passar mal comendo aquele monte de camarão! Não falei? Toma chá de boldo!

O pai:

- Aqui não tem chá de boldo. Toma umas dez gotinhas do meu remédio que fica boa já-já.

A doente faz cara de nojo, sentindo um suor frio e as pernas fracas.

A tia diz baixinho e ri:

- Não gosta do remédio não? Rsrsrs...

Todos começam a falar ao mesmo tempo: “Toma coca-cola”, “Se tiver com diarréia boldo não adianta porque empurra tudo pra baixo!”, “Você tem problema de estômago?”, “Come demais!”, “Come alguma coisa e toma o chá de boldo!”, “Sempre foi assim, desde criança...”.

A doente olha no relógio e vê: 08:05h. Pensa: “Tô com sono, dor de cabeça, vontade de reinar e pra mim hoje não é feriado... Maldito horário de verão.”.